Só para maiores

Um passeio pelo mundo do sex shop

São três meninas. Ok, nem tão meninas. São três moças (quase) maiores de idade. Elas nunca haviam feito isso antes na vida. Todas andam com aquela cara que grita “juro que sou inocente”. As pessoas passam ao lado e as garotas se encolhem, como se o mundo soubesse o que estavam prestes a fazer.

As amigas, que normalmente falam alto umas com as outras, hoje estão cochichando. Esse é um segredo que ficará guardado entre elas. Os carros passam e buzinam. As três se encolhem ainda mais.

Todas estão apreensivas. Uma delas pensa em desistir e a outra fala: “Gente, não estamos cometendo pecado algum”. As meninas criam coragem e entram pela estreita porta verde ao lado do letreiro luminoso.

“Ai que vergonha!” É a primeira coisa que se ouve assim que as amigas ultrapassam aquela barreira. A loja tem um pouco mais de 30 m² e está vazia. Exceto por um vendedor que comenta: “O que é isso menina! Sexo é a coisa mais natural do mundo!”

A ausência de clientes permite que as três tenham uma visão ampla do negócio, um sex shop. Pênis de borracha de todos os tamanhos – e incrivelmente parecidos com os de verdade –, anéis penianos, calcinhas comestíveis, vaginas e seios de borracha e fantasias de diversos personagens enfeitam as paredes e prateleiras.

Mas os produtos que mais chamam a atenção são os vibradores. Eles são de todos os tipos e modelos possíveis. Além dos tradicionais, nas cores rosa ou azul, há também aqueles em formato de mãos, coelhos, bola de futebol, Hello Kitty e até milho cozido.

Segundo José Carlos, proprietário do estabelecimento, entre os diversos itens, o mais vendido é o gel anestésico para sexo anal. “Homens e mulheres adoram”, conta. “A pessoa que usa pode até ler um livro enquanto faz sexo. Esse é o segredo: não dói.” Os “consolos” também aparecem na preferência dos clientes. Coloridos ou em formas diferentes, são um verdadeiro sucesso entre a mulherada. Os mais procurados são aqueles que vêm com estimulador de clitóris.

José é um jovem de 59 anos, de fala mansa, olhar atento e dono de um respeitável bigode. Para quem imagina vendedores de sex shop como jovens bonitos e bem dotados ou então vendedoras gostosas, encontrar o simpático senhor chega a ser decepcionante.

Mas o mundo dos sex shop é democrático. Ao contrário da música do Tim Maia, vale homem com homem, mulher com mulher, homem com mulher e a mistura que der para ser feita. Para quem nunca entrou em um, o primeiro impacto é marcante. Os olhos arregalados, famintos por informações, buscam todos os cantos visíveis do negócio, esperando absorver todo o tipo de conteúdo possível.

Muitos devem fantasiar como é o interior de uma loja de produtos eróticos. Para aqueles que nunca tiveram coragem de entrar, lá vai a resposta: é pequeno e com muitos pênis expostos nas paredes. E as famosas bonecas infláveis, pasmem, não são tão queridas pelos homens como todos imaginam.

Marcelo Santos, proprietário de um dos sex shop mais famosos de Joinville, conta que os marinheiros de primeira viagem acabam se espantando com o tamanho do pequeno lugar. “Vocês vão transar aqui dentro? É o que pergunto”, conta. “Não precisamos de muito espaço. É só colocar alguns artigos nas prateleiras e voialà, temos fregueses satisfeitos.”

Por muito tempo, homens e mulheres reprimiram seu apetite sexual. Entrar em um sex shop nunca foi visto com bons olhos pela maioria, embora ir a esse tipo de loja e fazer compras seja como ir na peixaria, no mercado ou no cabeleireiro. Não é uma coisa de outro mundo e normalmente todos gostam do que levam para a casa.

Para a sexóloga Fátima Jorge ainda existe um preconceito muito grande. “Condicionou-se que o sexo é pecado”, diz. “Mas ninguém nasce do pecado. Sexo é um prazer biológico.” Embora na atualidade essas lojas sejam encaradas por muitos como coisa de outro mundo, nos anos 1920 já havia propagandas de vibradores e brinquedos sexuais em jornais e revistas. Eram anunciados como produtos que “dariam poder às mulheres”. Na época, recebiam o nome de massageadores e os fabricantes prometiam acabar com a histeria feminina causada pela TPM.

Apesar da aparente resistência da sociedade atual em falar sobre sexo, Fátima, que é sexóloga há mais de 25 anos, acha que abordar o tema está mais fácil. “Sexo é uma coisa que não tem idade, tem prazer. Todo mundo faz e todo mundo fala.” E ela fala sobre o assunto com uma naturalidade que espantaria qualquer carola. Com jovem, adulto ou idoso, a especialista trata o tema com simplicidade, pois, para ela, sexo é só sexo, sem mistério algum. Quando perguntada sobre casamento, fala com ainda mais propriedade. Casada três vezes, garante que sua vida sexual é extremamente excitante e saudável. “Gosto muito de sexo”, confidencia.

O matrimônio deveria ser o lugar onde se faz mais sexo. Os afazeres do dia a dia e o desinteresse mútuo, no entanto, fazem com que casais deixem suas vidas sexuais caírem na rotina. “Eles deixam que aquela chama gostosa do sexo seja vencida pelo cansaço e vira uma obrigação”, observa Fátima. E uma boa saída para um relacionamento em crise pode ser o sex shop. “O ser humano é insaciável, sempre busca algo mais. E com o sexo não é diferente”, aponta a sexóloga. Fazer uma surpresa para o parceiro com alguma novidade, pode ser o “algo mais” que está faltando na relação.

Contudo, o melhor conselho que ela dá para as mulheres é: “Não tenham dores de cabeça.” Cá entre nós, qual mulher, naquele dia pouco inspirado, nunca olhou para o amado e disse que estava com aquela dor de cabeça terrível, deixando o pobre coitado, literalmente, na mão?

Embora a mulherada invente algumas desculpas para fugir do sexo, elas são as mais animadas nos quesitos inovação e compras em sex shop. A estudante Marianna Magno é do tipo moderna, cabeça aberta. Está em um relacionamento há cinco anos e adora comprar produtos eróticos. “O fator principal de um relacionamento é o sexo. E os produtos de sex shop ajudam muito”, enfatiza.

José Carlos, proprietário de sex shop há mais de 20 anos, comenta que as mulheres sempre são as mais animadas mesmo. Segundo ele, de cada 15 clientes, apenas um é homem. “Quem mais se entrega na relação é a mulher”, opina. Experiente no ramo, José conta que observar o sexo feminino dentro de uma loja com vários produtos sexuais é uma experiência antropológica interessante. “Elas chegam, conversam, brincam e não estão nem aí”, comenta descontraído.

Enquanto as damas deixam a vergonha de lado, os homens ainda sofrem com uma espécie de bloqueio. Entrar em um sex shop e agir naturalmente é uma tarefa árdua. “Tem cara que entra aqui e não olha para mim”, revela o proprietário. Mas o público mais inibido, para o espanto de todos, é o homossexual. Entrar na loja e ver um pênis de borracha com a mesma classe da mulherada não é para qualquer um. “Eles chegam e dizem que não é para eles, é para um amigo. Mas daí você percebe que a pessoa pega, aperta e não quer soltar”, comenta José.

Para poupar a vergonha de alguns indivíduos de entrar em um sex shop, a internet pode ser uma solução prática, segura, e que faz um grande sucesso: os sites especializados em produtos eróticos. E não são poucos. É só jogar a expressão “sex shop” em qualquer site de busca para encontrar uma infinidade de resultados. Existem aqueles endereços apenas virtuais e os que são a versão online das lojas da antiga geração, que já existem fisicamente e notaram uma nova possibilidade de consumidores.

A garantia é de total anonimato. Você encomenda o brinquedinho que quiser e, assim que o pacote chegar, aquela sua vizinha fofoqueira não vai fazer ideia do que seja. A variedade é outro atrativo. É só entrar no site e escolher o modelo, a cor e ler a opinião de outras pessoas. Os produtos são os mais exóticos possíveis. Há hímens falsos que simulam o sangramento, pênis no formato do presidente dos EUA, Barack Obama, e vibradores de ouro ou movidos à energia solar.

Outra opção são as revendedoras. Mulheres que compram grandes quantidades e vendem em salões de beleza, em faculdades e no trabalho. Uma delas é Silvana Agonilha. Para ela, o segredo é criar intimidade com o cliente. “Comigo eles ficam mais à vontade. Não é aquela coisa escancarada, é uma venda discreta”,garante com a experiência de quem trabalha há mais de um ano com isso.

Imagine apenas uma mulher dentro de um sex shop. Agora multiplique ela por 15. É assim que são as reuniões onde são vendidos os produtos. Longe dos homens, elas analisam, perguntam, trocam informações e fazem a festa. Aproveitam as promoções para gastar.  E no final, quem paga a conta, é claro, são os maridos.

A GENTE NUNCA ESQUECE

 “Ai que vergonha!” Foi a primeira coisa que as meninas disseram quando entraram no sex shop. Uma vez lá dentro, venceram a timidez, deram apenas uma olhadinha básica, bateram um papo com o vendedor e viram que não havia nenhum bicho de sete cabeças. Mas não levaram nada para a casa. Ficaram apenas dez minutos no estabelecimento. A saída foi um pouco complicada. Assim que abriram a porta, localizada em uma das esquinas mais movimentadas da cidade, as três meninas ouviram uma quantidade enorme de buzinas e elogios de todos os tipos. Desde: “aí gatinha”, até “hoje a noite vai ser boa”. Todas fizeram cara de paisagem, estufaram o peito e continuaram andando lindas, belas e plenamente felizes.

Sete dias depois da experiência, elas se reúnem. É uma tarde de sexta-feira ensolarada. Há uma semana as amigas não se falam por falta de tempo. Estão sentadas uma ao lado da outra, sem se olhar. O papo começa tímido. Nenhuma delas parece querer tocar no assunto. Mas é como evitar o inevitável. Uma delas cria coragem e diz: “Minha mãe deu risada quando contei que entrei em um sex shop.” As outras riem como suas cúmplices. Esse é o trampolim para a conversa. “Falo com a minha mãe de uma forma bem traquila sobre sexo. Já com o meu pai, tenho vergonha”, conta uma delas enquanto as amigas concordam

Sexo. Uma palavra tão pequena, só quatro letras que assombram pais e filhos. Com as três meninas não é diferente. Apesar de estarem bem crescidinhas e terem gostado do passeio, deixam transparecer que não se sentem confortáveis com o tema. O silêncio toma conta. Nenhuma delas fala. Os olhos percorrem os cadarços como se cada uma conversasse com seus próprios pés. Até que uma conhecida passa e chama as garotas.

Elas levantam e vão embora. Sabem que não tocarão mais no assunto. Mas na cabeça de cada uma, dúvidas e vontades tomam conta dos pensamentos. A palavra sexo não sai de suas mentes. Afinal de contas, a primeira vez em um sex shop a gente nunca esquece.

(Texto escrito para a disciplina de Redação 3)

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